Sexto dia, o último com off-road; começamos a sentir que a viagem está a acabar…
À saída de Ouarzazate fomos ver os famosos estúdios de cinema, nota especial para os cenários montados no meio do nada.


Para os ver a todos dá muito jeito o nosso tipo de motos.

Depois fomos fazer a «Rota dos Kasbahs», e começámos logo em Ait ben Haddou.

Esta está a ser toda restaurada; privilégios de ser Património Mundial, nem sequer as motos podem aproximar-se do leito do rio!


A partir daqui, mais 50 quilómetros em pista com muitas aldeias, e Kasbahs para fotografar, mas em adiantado estado de degradação, em contraste com Ait ben Haddou.


Na pista há muitas obras de alargamento, o que vai beneficiar muito o turismo local e por consequência dá novas perspectivas àquelas populações. Por enquanto complica, pois muitas vezes acontece termos de esperar que acabem alguns trabalhos para podermos passar, existe descargas de terra no meio da pista, etc, etc

A meio da pista existe um miradouro, que para aí chegar tivemos de fazer uma parte do trilho que julgo ser o track no seu estado original, pois não havia quaisquer sinais de obras, e o trilho era muito estreito.

Terminada a pista, encontrámos uma estrada de buracos com alcatrão!!! Chegados ao entroncamento com a estrada principal, parámos para almoçar, mesmo antes de Tizi n'Tichka.

Depois, rumámos a Marrakech por uma estrada de montanha fantástica, são cerca de +/- 30km’s de curvas, e contracurvas, umas a trás das outras, sempre a descer dos 2200 até aos 900 metros de altitude, especialmente os primeiros quilómetros são extraordinários. Para apimentar a coisa, eu só travava com o travão de trás, pois é a minha mota continuava sem travão da frente…

A entrada em Marrakech fica como uma das boas historias desta viagem. Apesar de não termos estadias marcadas tínhamos referências de hotéis em algumas cidades, onde seria previsível pernoitarmos.
Assim, o A. Peseiro foi à frente na entrada na cidade, seleccionou o ponto GPS do hotel e seguimos em modo de azimute. Entrámos por uma grande avenida, e depois chegámos a uma praça cheia de movimento. Começámos a entrar num bairro mais pobre, sem turismo mas com muito movimento; passámos então em ruas um pouco mais apertadas e com um só sentido, e muita confusão.
Resolvi fazer sinal ao A. Peseiro e perguntar se ele tinha a certeza se era por ali, resposta: “Claro que sim, o GPS está a apontar por aqui!”, então vamos continuar…
Quando damos conta, o movimento pedonal aumenta e o trânsito desaparece quase por completo, e mais grave, as ruas são cada vez mais estreitas!!! O comércio destas ruas aumenta, os turistas e os marroquinos começam a olhar para nós com uma ar muito espantado!!!
Faço novamente sinal ao A. Peseiro, desta vez nem foi preciso dizer nada!!!, só ouvi ele a dizer:
- Estamos no meio da Medina!!! mas é por aqui…”
- Não é melhor dar a volta?
- Como?! Não tens espaço para virar as motas!
Agora imaginem a situação com os turistas a tirar fotos à situação, os comerciantes a chamarem-nos nomes – mas em marroquino não faz mal…!- Uma vergonha! Agora, a esta distância acho piada, e até gostava de ter tirado umas fotos para documentar, mas na altura queria sair dali o mais depressa possível.
De repente estamos na praça Jemaa el Fna, são 16:00. Acaba aquela sensação de claustrofobia da Medina, mas a agitação agora é brutal. É gente por todo lado; são vendedores, encantadores de serpente, músicos, folclore, disputas de boxe (sim, leram bem! dois tipos à pêra, e povo todo a ver.) e claro, muitos transeuntes, turistas a solo, grupos de turistas com guias e marroquinos claro, uns a ver, outros a comprar.
A partir daqui e até ao hotel, já fomos pelas avenidas normais da cidade, a única coisa fora do normal é a condução deles, não sei como é que não há mais acidentes, nós só vimos um à noite.
Depois, queria encontrar uma oficina da BMW para arranjar o travão, pois tínhamos ouvido que ia chover no dia seguinte, e por uma questão de segurança era melhor arranjar a mota. A primeira indicação que tivemos era para uma oficina da Audi! Pelo que, resolvemos perguntar, e nem de propósito logo encontramos um polícia com uma mota igual à minha.
Tanto questionou se eu queria mesmo ir ao concessionário, dado o preço que eles cobram (a fama da BMW chega a todo o lado!) que eu acedi à sugestão dele; o mecânico que trata das motas dos policias. Pediu para aguardarmos um bocadinho num café ao lado, pedíssemos um uísque berbere que o amigo demorava 15 minutos.
Sentamo-nos e, começamos a dizer que era para ele ganhar a comissão do mecânico e do tipo do café, Pedimos e, o chá ainda não tinha chegado quando para um tipo de mobilete ao lado da minha mota, com uma caixa de ferramentas e começa logo a experimentar a manete. Lá fomos nós ter com ele, explicámos o que se passava com o travão. Entretanto chega o policia já acompanhado por outro colega, que entretanto tinha chegado; era o empregado do café a levar-nos o chá, quando damos conta já os policias discutiam com o mecânico.
O mecânico queria levar a mota para a oficina porque ali não conseguia arranjar a mota, e o polícia queria que ele fizesse o trabalho ali mesmo. Compreensivos com o mecânico, intervimos em favor dele, dizendo que íamos de boa vontade à oficina, pois ele ia ter material e as ferramentas à mão, e lá fomos.
Chegámos, pediu-nos para aguardar 2 minutos e desapareceu entre os prédios. Logo apareceu com dois cabos para o travão, nenhum deles dava, voltou a desaparecer e quando regressou tinha mais dois para experimentar, um deles era de malha de aço! Claro, que todos eram usados mas com um paninho molhado, rapidamente ficou como novo. Foi colocado o cabo, o óleo dos travões, sangrou-se o sistema tudo de uma forma surpreendentemente eficiente, tendo em conta o aspecto do espaço.
Fiquei muito agradado e recomendo a quem precisar de alguma coisa em Marrakech, tenho o ponto de GPS se entenderem que devo publicar.
Mas para surpresa nossa quando perguntei o preço: Rien! Isso mesmo, zero, não podia levar nada, nem mão de obra, nem material, porquê? Não sei. Mas calculo que tenha a haver com o polícia. Eu penitencio-me por ter pensado que ele queria, a comissãozinha dele…
O sétimo dia era para regressar, directo até Tanger e ainda apanhar o ferry, e conseguimos!! Registo para uma despedida molhada, pois os últimos 50km’s em Marrocos foram com chuva.
Ultimas horas em Marrocos, à espera do barco.

Dormimos já em Espanha, num hotel junto à praia.

O oitavo dia era para chegar a casa. Eu fiquei um pouco mais a Sul, em Tavira e o A. Peseiro regressou a Coruche.
Foi sem duvida uma excelente experiência. Percorremos cerca de 4.000km em poucos dias. Foi duro mas tenho a consciência que se estivesse a chover teria sido mais difícil fazer algumas partes das pistas percorridas. Na semana a seguir a chuva foi tanta que, em Fez caiu um minarete.
Gostava também de ter feito mais pistas e menos alcatrão, mas é com a experiencia que aprendemos, e na próxima tenho que corrigir pequenos detalhes.
A mota portou-se muito bem, e para uma monocilíndrica a viagem foi suficientemente confortável, os consumos fantásticos. Houve um dia que gastou 3,75 L/100. Boa nota para o Henrique na preparação da mota.
Planos para uma próxima? Não há! Mas destinos não faltam, uns para o médio prazo, outros para o longo, longo prazo! No curto prazo, talvez a Europa por alcatrão a dois.