Começo esta descrição num quarto de hotel, em
Tunis, o
Grand Hôtel de France – nome pomposo para um antigo hotel que já teve melhores dias mas que ainda não perdeu todo o seu charme – com a incerteza sobre um sobreaquecimento da motoquatro

– em tantos dias de calor, ficou acalorada num dia fresco – e com passagem

marítima para França marcada para daí a dois dias.
Quando me apresentei à recepção perguntei se seria possível guardar a mota. Que sim, que já o tinham feito, 'pas de probleme'(1), que podia ir buscá-la. "Por onde entro"? "Por aqui mesmo". "O quê, pela porta principal"!! Quando começo a entrar... O homem nem queria acreditar no que via: uma volumosa motoquatro, carregadíssima, com alguns restos do lamaçal tremendo por onde tinha passado a entrar pelo átrio

de entrada e, os clientes do hotel a olharem incrédulos: Tunísia, país 'pas de probleme'!(2)
A Rosalina

tinha cerca dum mês de férias a consumir: onde ir? Eram em Setembro/Outubro. Já faz fresco/frio na Europa. África, a sul do Trópico de Câncer, fim da época das chuvas, muita água no terreno. Marrocos, está muito visto. Argélia, Líbia, Egipto, complicados e exigentes. Restava a
Tunísia.
A Tunísia nunca me despertou grande interesse. País relativamente pequeno, com um afunilamento na parte mais apelativa - o sul de areia e dunas - que actualmente só se pode percorrer com autorização e acompanhamento, o restante, uma incerteza, que as travessias por estrada anteriores mostravam ser uma monotonia de terrenos agrícolas e longos olivais, algumas praias pejadas de turistas de pacote e alguns amontoados de pedras e ruínas, restos de antigas civilizações, antigas glórias.
Mas, como não via grandes alternativas, comecei a considerar esta hipótese, coligindo alguns trajectos obtidos e tentando descobrir outros através do Google Earth, tentando descortinar se seria possível percorrer em todo-terreno durante 4 semanas um país aparentemente tão limitado.
E, a pouco e pouco, comecei a aperceber-me que havia realmente muitas zonas agrícolas, mas também montanhas, prainhas escondidas, vales arborizados, alguns recantos prometedores: era tudo muito difuso (imagens de fotografia aérea por vezes não muito nítidas) mas que, pela sua própria incerteza, espicaçavam a curiosidade de lá ir verificar como seria.
Por fim, acabei por compilar um longo percurso e... criar uma grande expectativa.
E, realmente, as expectativas não foram goradas. Acabou por ser uma interessante viagem, e um percurso

formidável de cerca de 3000 km! Em quatro semanas exigentes – a meteorologia nem sempre foi benevolente – mas compensadoras.
Era suposto que em fins de Setembro ainda estivesse bom tempo neste território do sul do Mediterrâneo mas assim que entrámos em pista, e foi logo a partir das imediações

da capital, deparámo-nos logo com o resultado dum grande temporal pluvioso recente que tinha provocado grandes inundações com algumas mortes entre a população, na forma de terrenos alagados ou húmidos!
A Tunísia é composta de muitas depressões

(chots) que quando chove ficam húmidas, alagadas ou pantanosas e, as pistas em geral são terrosas

, mesmo as de montanha – excepto no canto

noroeste onde já existe alguma pedra – que quando chove se transformam em lamaçais

! E, quando começámos a entrar na parte montanhosa do interior noroeste começou a chover com alguma intensidade. Os últimos dias foram de chuva diária.
Em grande parte destes dias foi um desatino e um exercício de patinagem circular. A lama por vezes era tanta e tão consistente que me chegava a bloquear

as rodas da motoquatro. Outras vezes tive mesmo que tomar alternativa frente a lamaçais ameaçadores! (3)
Mas também houve dias de sol, calor, praias

a perder de vista e uma água de mar tépida

e transparente. A doçura climática da ilha de
Djerba. Grandes planícies, agrícolas

no norte e centro, semi-desérticas

no sul/sudeste, arenosas

no sul/sudoeste. Aflorámos a zona

dunar, com uma passagem sobre dunas de areia, curta, mas do mais difícil

que tenho encontrado, com indícios de grandes atascanços de jeeps, mas… Ah! Grande máquina!

De moto4 transformou-se um passeio divertido de subidas e descidas consecutivas. A frescura dos palmeirais

de Douz. O impressionante penedo rochoso ‘Table de Jugurtha’(4),

afloramento de pedra de bordas

altas verticais transformado em
fortaleza

inexpugnável!
As belas arborizadas

montanhas do noroeste do país e…
aquela magnífica floresta

de carvalhos!
Os pinhais

arenosos bordejando
a costa

marítima rochosa a norte
intercalada de praias

e prainhas.
Algumas cidades e, Tunis,
a capital, a única metrópole do país,
a sua esplêndida medina!
E também outras coisas que contam outras coisas que acontecem, as gentes simpáticas atenciosas curiosas prestáveis, sempre dispostas a acolher uma tenda nas imediações da sua casa, a oferecer um pouco do pouco que têm, um chá, uma bolacha, um sorriso, a estupefacção perante aquele veículo tão esquisito que passa pela aldeia. As restrições, as escoltas militares, porque a zona é proibida sem autorização expressa, porque se está demasiado perto da fronteira com a Argélia. A gastronomia, forte, muito vermelha, muito pimentão, muito picante… muitas úlceras no estômago por lá; ah! aqueles ‘spaguetti avec fruits de mer’ (5), especialmente aquele acompanhado por um rosé tunisino gelado! E depois há os bolinhos de amêndoa, as frutas, muita fruta, muitos legumes, frutos secos, o odor das especiarias!, cactos,

muita azeitona, extensos olivais, oliveiras por todo o lado, mesmo pelas zonas mais inóspitas e arenosas.

Também muito lixo, a céu aberto, espalhado pelos arredores das cidades!
As paisagens, os grandes espaços, os recantos agradáveis, o esforço, a tensão, emoção, cansaço, acampar,
adormecer lentamente, dormir profundamente… Comemorar 59 anos de aventura dentro duma minúscula tenda, isolado, em montanha a 1000 m de altitude, o bater forte das bátegas de chuva, o clarão intenso dos relâmpagos, o rugido dos trovões, a forte tempestade: o assustador cenário duma natureza indomável que nenhuma ópera consegue recriar, sensações que nenhum espectáculo consegue transmitir, uma noite de aniversário que nenhum hotel poderia proporcionar!
Tudo isto prova de como a maneira e a forma como se viaja podem transformar travessias desinteressantes em trajectos entusiasmantes – embora por vezes exigentes ou mesmo difíceis.
Passar duma grande estrada ou auto-estrada para uma simples pista de terra pode mudar completamente a maneira como vemos e encaramos determinada paisagem ou sentimos uma dada situação. Atravessar uma interminável planura, uma charneca agrícola ou um imenso olival, por estrada/auto-estrada poderá ser uma grande sensaboria; por pista, há sempre algo a despertar os nossos sentidos, um buraco, uma vala, uma passagem a vau, alterações do terreno, desvios, irregularidades, obstáculos etc., que nos prendem a atenção, exigem concentração, esforço, quebrando a tendência para a monotonia associada a grande parte das vias de tráfico: nunca ouvi falar que alguém tivesse saído de pista por ter adormecido!
A Tunísia não é um país espectacular nem de grandes contrastes nem de altas montanhas (6) e é relativamente pequeno; é um país suave, de clima ameno, muito agrícola, muitas praias, de águas tépidas, que convidam um turismo de consumo florescente. Mas há que a visitar, pelo seu interior, para sentir a sua verdadeira alma, para ver o seu verdadeiro ser!
Foram necessárias cerca de uma semana para ir e voltar; quatro para percorrer os 2900 Km de pistas, alguns carreiros, algumas poucas ligações por estradas secundárias.
País de vida barata, combustíveis a metade do preço de Portugal, tascas de preços módicos, um ou outro restaurante de menu convidativo, pequenos hotéis de preço razoável em condições aceitáveis, alguns poucos parques de campismo, cerca de três semanas acampando onde calhasse, comendo onde se proporcionasse ao almoço, acendendo o fogão para o jantar, foi a fórmula que permitiu despender, só neste país, cerca de 500 euros durante quatro semanas (7).
(1): Não há problema.
(2): Eu tinha dito que era uma mota grande, um quad; mas o recepcionista do Hotel não percebeu, julgando que era uma mota grande mas de duas rodas.
(3): Estávamos sozinhos, quando havia árvores – tinha guincho – ainda podia arriscar avançar.
(4): Mesa de Jugurtha
(5): Esparguete com frutos do mar.
(6): As altitudes máximas andam entre os 1000 a 1500 m.
(7): A passagem marítima é que inflacionou o orçamento: cerca de 1000 euros – duas pessoas, a moto4, sem cabine! A moto4 actualmente paga tanto como um automóvel.
Para a completa descrição visual ir a:
http://picasaweb.google.pt/euquim/2009Tunisia?feat=directlinkSaudações nómadas!
Quim