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« Responder #15 em: Fevereiro 16, 2008, 18:34:18 » |
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Marrocos a partir de agora ia ser diferente. A M12 (250 km) e a M13 (390 km) são duas das mais longas pistas de Marrocos que vêm descritas no Sahara Overland, a minha “bíblia” nesta viagem. Sobre a M12 o Chris Scott (CS) escreve: “The Tan Tan - Assa piste is not an especially interesting route and the bumpy terrain soon gets tiresome, but the piste passes through typical south Moroccan scenery, crossing stony hamadas and oueds as it runs east-west between paralle mountain ranges.(…)”. E sobre a M13, que vai de Assa a Smara: ”Running down to the Sequiat el Hamra in the Western Sahara, route M13 has all the ingredients of a classic Sahara route in a diversity of landscape and terrain: mountains, reg, fast sections, numerous oued crossings, rocky piste and even your old friend, corrugations, all in a remote setting you rarely find in ‘mainland’ Morocco. The region was scene of polisario battles in the 1980’s and today you may spot the raïmas (tents) of Reguibat nomads in the mountains between km200 and km240.” Encantador e apelativo. Para um novato era ao mesmo tempo um desafio um bocadinho assustador: um dia para fazer a primeira e dois para a segunda é o que vem no livro, ia ser a minha prova de fogo antes da Mauritania. O plano era em vez de seguir directo, e sempre por alcatrão até Layoune, fazer um ‘loop’ e ligar Tantan a Assa e Assa a Smara – já no Sahara Ocidental – por terra (as tais pistas a que no livro o CS chama de M12 e M13) e depois então ir até Layoune e seguir para sul, até à fronteira. E antes disto tudo tentar fazer umas pistas junto à costa, entre Agadir e Tantan. (Estas últimas, e uma variante da M12, pistas na Mauritania e mais coisas estão aqui.)
Quando o alcatrão acabou de repente foi um choque. No mapa era uma pista mas afinal para sul de Sidi Ifni o caminho está alcatroado, e eu pensei que ia continuar até à Plage Blanche, mas não. Depois de quase 2000 km a ver uma linha de chão preto à minha frente não estava à espera que fosse assim. Uma curva a descer, uma ponte lá em baixo e pronto, acabou. Do outro lado só pedras e terra a subir em várias direcções. E agora? Vou para onde? Subi em frente, mas a meio da subida já a suar por todos os lados, com a roda da frente a querer ir no ar, começo a perguntar porque é que estou a ir por ali e páro com o feeling que não é o caminho certo. Volto a descer para a ponte, com os pés no chão a escorregar, e marco no gps o waypoint (wp) do Fort Bou Jerif, onde ia dormir essa noite. De facto a coisa indicava para uma espécie de caminho à minha esquerda, que eu antes não quis ver tanta era a pedra que estava à vista. Mas era mesmo por ali. Foram uns quilómetros sofridos a subir aos bocados um rio seco até chegar a uma pista de terra lá em cima. Isto, que não parece muito, foi para mim muita coisa em pouco tempo. Foi um choque o alcatrão acabar sem avisar, a subida de calhaus, o leito seco aos saltos, o não saber se o caminho é o certo, o saber que não dá para arriscar a ficar com uma perna entre uma pedra e o peso da mota ali no meio de nada e logo no princípio da viagem. Estava a suar e com a cabeça a 100 à hora quando a terra ficou direita e lá descobri o Bou Jerif, que me andava a fugir há anos. O caminho normal para lá se chegar é outro, é uma pista de terra que vem da cidade de Guelmim; é um sítio perdido no meio de nada onde se dorme em quartos ou em tendas com restaurante e wc limpos e um maravilhoso duche de água quente. A dormir só eu e uns italianos, de motas alugadas, a investigar as migrações das gaivotas e outros pássaros. À noite, fica o som do vento fraco. depois do gerador e dos sapos se calarem.
 Sidi Ifni
 Sidi Ifni A sehnora esconde-se quando peço para fotografar. Vê-se o dedo.
 Sidi Ifni
 Perto de Bou Jerif
 Perto de Bou Jerif
 Bou Jerif
 Perto de Bou Jerif 5 minutos depois de começar o dia, a minha primeira queda
Acordei muito cedo – vai ser sempre assim até ao fim – mas nesse dia havia uma razão para isso: a maré. Tinha de arrumar a tenda e o resto, comer, sair dali, descobrir o caminho até à Plage Blanche, fazer os 40 e tal quilómetros de areia e descobrir o caminho para sair da praia, tudo antes da água do mar subir. Parece simples depois de o ter feito, mas antes não se sabe como vai ser. Depois de quilómetros de pista de lama e pedras quando no alto da falésia a praia aparece finalmente foi de tirar a respiração. A praia não tinha fim, a areia virgem ia até à linha do horizonte, até onde se conseguia olhar, até ao infinito. Ao meu lado uma roulotte, e um homem que sai de lá de dentro, pede-me um cigarro e volta a entrar fechando a porta atrás de si – há sempre qualquer coisa de estranho ou bizarro quando menos se espera. Lá em baixo a sensação de infinito e de liberdade continuou quilómetros e quilómetros e eu não queria que acabasse nunca. Nunca mais vou sentir o que senti naquela praia. O ar estava frio do mar e as gaivotas levantavam voo quando eu passava. Eu tinha previsto este trajecto por causa da areia, para experimentar alguma antes da Mauritania, e estava um bocado ansioso, mas afinal a areia na praia estava dura e o mais difícil foi descobrir o caminho para sair de lá. Acho que só o encontrei porque vi umas marcas de pneus que achei serem dos 4X4 que tinha cruzado ainda antes de chegar à praia. O coração ainda bateu depressa quando a mota ficou enterrada duas ou três vezes e imaginei a água salgada a chegar ali, mas no fim quando olhei para a praia lá em baixo tive a sensação que o mundo me pertencia. Depois disto havia várias pistas para chegar a Tantan, e opto pela mais curta, ainda assim sem evitar uma queda estúpida num bocado de areia, com a mota quase parada. Aproveitei e almoçei logo ali, devia estar fraco, e quando finalmente voltei ao alcatrão entre Guelmin e Tantan não resisti e tirei uma fotografia para marcar o feito. Passo pela terra dos 2 camelos para comprar água, pão, fruta, gasolina e pilhas para o gps, não vá ele ter uma quebra. Não encontro cybercafés ali à mão e bebo uma coca-cola num café onde já tinha estado sentado, anos antes – volta-se sempre aos mesmos sítios? Saio de Tantan entre bandeiras vermelhas, e tal como em Sidi Ifni, limpam a cidade, pintam os passeios e alguns edifícios e há vermelho por todo o lado. Descubro que é o Rei que vem cá. E eu vou finalmente fazer a M12 e a M13 com que sonho há tempos. Sigo até Msied, diz o livro que está alcatroado e é verdade. Não passa um carro. São só 60 km mas pela primeira vez sinto aquela coisa estranha que se sente no deserto e que não consigo descrever por palavras. A estrada é um fino risco no meio do mundo e a paisagem é de montanhas que não acabam e que mudam de cor com a luz do dia que está a chegar ao fim. Em Msied – umas casas de barro castanho à volta de uma mesquita cor-de-rosa – acaba a estrada e não encontro logo a pista, vou primeiro para sul seguindo os dedos apontados das crianças “ oui, oui, la piste du Dakar..” à espera que a pista volte para norte atrás daquela montanha, mas não volta. Eu é que volto para trás e não sei bem como lá a descubro. Uns quilómetros à frente páro e acampo na minha primeira noite no deserto. Uma sopa e um chá e silêncio absoluto. Foi bom ver as estrelas aparecer mas continua frio quando se adormece e quando se acorda. Sinto que o tempo é meu e demoro a partir no dia seguinte. O sol aquece o corpo aos poucos.
Passo por camelos, nómadas, crianças sozinhas e cabras. Um miúdo fala comigo por gestos mas não nos entendemos. A maior parte do tempo não existe nada à minha volta a não ser o céu e a terra. E o caminho à minha frente. Comi pão com lulas enlatadas encostado a uma árvore enquanto umas formigas andam à volta do molho na terra vermelha. Um camelo fugiu quando estava quase a tirar-lhe uma fotografia. Passo um rio que era mais fundo do que parecia. A pista muda muito, tanto é de pedra dura e escura aos altos e baixos como plana e de terra branca. Faço 100 km em 4 horas e o caminho todo sem marcar um único wp no gps, a pista é clara a maior parte do tempo com marcos feitos de pedras amontoadas ou terra, e foi usada no Paris-Dakar no início dos anos 90. Agora alcatroaram os últimos 50 km de Aoinet Torkoz até Assa. Depois de estar o dia todo a andar fora de estrada volto a cair com a mota quase parada quando saio do alcatrão uns metros para tirar uma fotografia a um poço… O Rei andava atrás de mim, também viria a Assa: andam a pintar os passeios às cores e limpar as ruas. Mais água, mais pão, mais gasolina. A M12 estava feita e eu sigo para sul, 30 km de alcatrão, depois saio para mais 350 kms de nada até Smara. Foi boa a sensação de estar em Assa entre uma pista e outra; na bomba de gasolina, depois de lavar as mãos e passar a cara por água numa torneira ali ao lado, lembrei-me de lá ter estado há dois anos e olhar para o sitío onde a pista acabava a pensar “um dia tenho de cá vir e fazer isto…”
 Plage Blanche
 Plage Blanche
 Plage Blanche
 Plage Blanche
 Plage Blanche Mais um homem, mais um cigarro
 Plage Blanche, Aoreora
 Tantan Cada vez que volto não resisto e tiro uma fotografia aos camelos. Tantan tem qualquer coisa de mágico, não tendo nada de especial. Ou então é a estrada, um dos mais belos trocos da EN1 - entre Guelmin e esta cidade rosa. É o deserto que chegou.
 Tantan
 Estrada Tantan - Msied
 M12, perto Msied
M12, perto de Msied
 M12
 M12
 M12
 M12
 M12
 M12
 M12, perto de Aouinet Torkoz
 Perto de Assa
 M13
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Daniel Santos
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« Responder #16 em: Fevereiro 17, 2008, 04:36:51 » |
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Paulo;um obrigadão pelos momentos fantasticos que me estás a proporcionar com o teu relato e as tus fotografias que estão simplesmente BRUTAIS.....Quem diria que aquele rapazito numa moto preta,com quem eu me cruzei na comporta á uns tempos atrás,fosse protogonista de tamanha odisseia A SOLO...... Agora Paulo,vais levar com o pessoal,não te largam e querem mais e mais...palavras e imagens. Tenta aparecer nestes proximos passeios para que nos possas proporcionar na 1ª pessoa relato de trechos da aventura.
Encontramo-nos então, por algum mau caminho.
Os meus parabéns e um abraço.
Daniel Santos
Suzuki Dr 750 Big 1988 Suzuki Dr 650 Se 2000
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André Espenica
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« Responder #17 em: Fevereiro 17, 2008, 12:42:11 » |
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Wow!!! fantástico! MAIS!!!  p.f. André
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Alexandre Mineiro
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« Responder #18 em: Fevereiro 17, 2008, 15:14:04 » |
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Isto faz sonhar em todas as aventuras que gostaria de fazer mas nunca fiz, continua a escrever, ler alivia a alma e faz bem ao espirito......
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Alexandre Mineiro Dominator 650 Nova AT já estava com saudades
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83-40-SU
desOrganizador
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« Responder #19 em: Fevereiro 17, 2008, 19:22:19 » |
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“La piste est vaste.” Dizia-me um soldado do exército marroquino enquanto me estendia um copo de chá de menta, acabado de fazer numa pequena fogueira. À volta não há nada só terra e pedras e o céu azul. O sol já vai alto, mas o dia ainda é frio. O soldado falava comigo mas eu quase não olhava para ele. Não conseguia desviar o olhar de outros olhos que me olhavam, uns olhos escuros e misteriosos que estavam fixos nos meus. Não se via mais nada daquele corpo. Só os olhos. Mas os olhos não mentiam e eram os de uma mulher soldado que estava sentada no chão, vestida com um sobretudo verde escuro, que ia dos pés à cabeça. Ela tinha um copo de chá na mão e bebia em silêncio, não parava de olhar para mim e eu não desviava o olhar dela. Como se tivessemos hipnotizados um pelo outro. Foi estranho, não estava habituado a ser olhado daquela maneira. Mas o soldado que falava comigo não desistia de falar e os outros ali ao lado olhavam para a mota e para mim curiosos. Era certamente mais estranho para eles, a presença insólita de um viajante perdido ali naquela vastidão de terra desértica e árida a perder de vista, do que para mim tinha sido o avistar de camiões, jipes e homens fardados. Afinal eu tinha acabado de acordar entre os “muros” da famosa ‘Berm’, uma “parede de areia” com mais de 2500km, desde Tata em Marrocos, até à fronteira com a Mauritania, atravessando todo o Sahara Ocidental. Longe vão os tempos da guerra com a Frente Polisário, mas ao longo destes dois dias para além de umas poucas tendas o único sinal de civilização que senti foi aqui e ali a presença dos militares. Aqui eram 2 camiões e um jipe, meia dúzia de homens – mais os olhos misteriosos – e a fogueira para o chá e para o leite em pó, lá ao longe outro grupo e mais longe ainda, mais uns, eram exercícios militares. Uns bons quilómestros à frente havia um acampamento militar de tendas brancas.
“La piste est vaste”. Foi muito mais tarde que percebi o verdadeiro sentido destas palavras. Na altura olhava à volta e pareceu-me certo o que ele dizia, mas a vastidão da terra sempre-igual-mas-sempre-diferente, a solidão que se sente ao não ver nenhuma pessoa durante horas e horas e horas, a sensação de pequenez perante a imensidão do Nada ali à volta, o tempo que passa num ápice mas que parece demorar uma eternidade a passar, isto tudo só mais tarde é que senti. Enquanto esticava as hastes da tenda no fim desse dia, depois de 160km feitos, era como se tivesse acabado de fazer o mesmo há apenas alguns segundos, como se o dia tivesse passado num abrir e fechar de olhos, como se o tempo e o espaço tivessem sido comprimidos. Mas entre um gesto e outro tinham ocorrido milhares de pequeninas coisas, tinha visto o land-rover de luzes amareladas e stop vermelhos afastar-se no princípio da noite anterior, tinha-me sentido feliz com a rotina das pequenas coisas que se começa a ter: tirar-o-saco-montar-tenda-fazer-chá-fazer-jantar-comer-fumar-cigarro-etc, tinha sentido que não tinha nenhum medo de estar ali sozinho, tinha hesitado entre deixar as coisas fora da tenda ou dentro da tenda, e de manhã pensei que era ridículo, afinal o mundo, aquele mundo era só meu, não havia mais ninguém ali, tinha pensado que o melhor era não pensar em ter um furo, para não o ter mesmo, tinha sentido o silêncio mesmo silêncio, como nunca o tinha sentido antes, e em que cada gesto meu era feito devagar para não o interromper, tinha visto as latas de conserva enferrugadas nas pequenas guaritas do “muro de areia” e imaginado os soldados escondidos a suportar o frio da noite e o calor do deserto, de armas em punho a lutar contra um inimigo invisível, tinha visto o deserto mudar de forma e cor à medida que os quilómetros passavam, tinha pensado na minha sorte, ou destino? quando deixei enterrar a mota na areia e precisamente nessa altura, quando estava já a tirar os sacos e malas, apareceu um jipe – o único que vi em movimento durante o dia todo – vindo do nada, e os soldados saíram, como se soubessem exactamente o que fazer (pareciam figurantes de um filme em que também eu era actor nesta cena), apertaram-me a mão e quase sem falar empurraram a mota para a areia dura, desaparecendo logo a seguir, tinha caído mais que uma vez quando a terra dura passa a ser areia mole, tinha ficado com a perna presa debaixo da mota na última delas e torcido o joelho, cheio de dores a olhar para os lados para ver se havia alguém, sentado no chão sem conseguir levantar-me, e só por instantes penso o quão remoto é este sítio se alguma coisa mesmo grave me acontesse, tinha percebido já perto de Labouriat – pequena aldeia onde só vi um soldado – que estava na pista errada, mas que de qualquer forma ia lá dar, tinha saído de lá também pela pista errada, voltando para trás uns quilómetros depois, lembrando-me do que o soldado tinha dito “a pista está marcada, tem montes feitos de terra dos lados” e percebendo a diferença entre o que é WSW e W, entre o que é 200 e poucos e 200 e muitos no gps, tinha vivido cada instante em cima da mota a fazer micro-decisões em micro-segundos o dia todo, a ter mil pensamentos e ao mesmo tempo extasiado por estar ali, e a olhar à volta em paz. Não, não tinha acabado de montar a tenda segundos depois de a ter montado no dia anterior. Tinha passado um dia inteiro e eu estava no meio do deserto, no meio de coisa nenhuma, e sim “la piste est vaste” Depois senti a magia da luz do sol a ir embora e da luz da noite a chegar. É de facto mágico. Extraordinário.
 M13 A tenda entre 'muros'
 M13 Um 'muro'
 M13 E outro mais à frente
 M13
 M13
 M13
 M13
 M13, km197, N27º 32.8' W10º 33.6' Amanhecer
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« Última modificação: Fevereiro 18, 2008, 02:11:27 por 83-40-SU »
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tomazpessanha
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« Responder #20 em: Fevereiro 17, 2008, 21:13:59 » |
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Estou fascinado! Pela viagem de fora e de dentro, pelas fotos. Obrigado. Tomaz
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Nuno César
desOrganizador
Nomad muita Chato!!
   
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« Responder #21 em: Fevereiro 17, 2008, 21:21:03 » |
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 Fantastico relato... obrigado pela partilha
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Bom TT, Nuno César KTM LC8 Adventure Orange 
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Luis Salta Silva
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« Responder #22 em: Fevereiro 18, 2008, 00:14:55 » |
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Huummmm... Paulo é grande! E a sua moto idem ! Que continues inspirado como até agora, que nos estás a dar um belo presente! 
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Afoganso
Nomad
 
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« Responder #23 em: Fevereiro 18, 2008, 11:00:37 » |
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Fantástico, brutal!!! Parabéns pelo relato!
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Nuno
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« Responder #24 em: Fevereiro 19, 2008, 12:22:02 » |
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Muito obrigado Paulo pela partilha desta tua grande aventura, não só pela extensão mas também pelo facto de a teres feito sozinho. É necessária muita coragem! Vai continuando que estamos todos à espera 
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Nuno Rodrigues
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lisinha
desOrganizador
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« Responder #25 em: Fevereiro 19, 2008, 14:27:16 » |
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A tua partida "inesperada" logo nos maravilhou, pelo destino em si, pela aventura a solo e pela tua grande coragem!! Ficámos ansiosos! Agora, mais ansiosos estamos!!  Espero que a inspiração e dedicação com que te prestas a partilhar a tua grande aventura NÃO SE ESGOTE!! Porque eu estou a adorar a leitura!! Parabéns Paulo!
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Luís Lourenço
Moderador Global
Mas este gaijo trabalha?
   
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« Responder #26 em: Fevereiro 19, 2008, 16:49:18 » |
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“La piste est vaste.” 'La piste est vaste', é bem verdade, teres-la feito sozinho, é obra, eu não me atreveria... eram exercícios militares. Uns bons quilómestros à frente havia um acampamento militar de tendas brancas.
Fiz a pista de Assa a Jdiriya com dois sahauris, não se cansavam de nos avisar para não sairmos da pista, os vários acampamentos de militares são brigadas de desminagem. e só por instantes penso o quão remoto é este sítio se alguma coisa mesmo grave me acontesse, tinha percebido já perto de Labouriat – pequena aldeia onde só vi um soldado – que estava na pista errada, mas que de qualquer forma ia lá dar
Ontem fizeram-me uma pergunta muito pertinente (esta tua viagem, como deves imaginar não é só comentada em online, há muita conversa em off, nem imaginas os nomes que te chamamos, mas é só inveja...) Como é que tu fizeste Assa a Smara aparentemente sem reabasteceres? Passaste em Labouriat, nós também, mas até Jdiryia fomos com um jipe com os dois saharauis e daí para a frente faltavam 250 kms, já tínhamos autonomia. Conta lá... A tua GS carbura leite de camelo??? Foste a M'Sied reabastecer? Levaste cangalhas com bidões? Estou curiosíssimo... Sem desviar para M'Sied tiveste na certa mais de 500 kms sem reabastecimento!
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Gonçalo Pais
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« Responder #27 em: Fevereiro 19, 2008, 17:00:03 » |
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Ó Luís....a Gs do Paulo andou 2 dias do PaP com a luz da reserva ligada ahahahah
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83-40-SU
desOrganizador
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« Responder #28 em: Fevereiro 19, 2008, 17:19:57 » |
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 M13 São quilómetros e quilómetros. São tantos que esqueço agora o que vi antes e a paisagem confunde-se na minha cabeca como se misturasse todas as imagens numa só. Quando olho para as fotografias no fim do dia sinto que não está lá o que vivi, como se o mais importante ficasse entre as fotografias.
 M13
 M13
 M13 Há terra, há areia, há pedra. Às vezes são seixos, pedras arredondadas que fazem lembrar o mar, outras vezes são afiadas, como se fosserm restos de escarpas. E durante muito tempo tudo parece uma paisagem lunar, mas de pedra preta.
 M13 Muito tempo depois reparei que o pequeno saco plástico com lixo que tinha preso ao saco north face tinha desaparecido. Andei dias chateado comigo mesmo e depois disso o lixo foi sempre ou nas malas ou no saco do depósito.
M13 Domingo, 2 de Dezembro: “(…) caí com a mota quase parada quando voltava para o trilho e a roda da frente enterrou numa areia que pensava eu não era nada. A perna direita ficou outra vez debaixo da mala. Desta vez consegui não forçar muito o joelho mas a mala ficou a fazer peso na barriga da perna e tive de “escavar” a areia para a conseguir tirar. Continua a doer. (…)”
 M13 233 (154) N27º 17.2’ W10º 39.0’ Change of bearing. Follow the oued W. Five kilometers later there is a well (N27º 16.9’ W10º 43.8’). You climb up onto a plateau before a descent with panoramic views. in Sahara Overland Uns vinte minutos para descer com a mota desligada e a embraiagem a fazer de travão. Lá em baixo um mar quase branco.
 M13, Ga’at Mezwar
 M13, Ga’at Mezwar Olho para trás.
 M13, Ga’at Mezwar Para um lado.
 M13, Ga’at Mezwar Para o outro. Às vezes tenho a sensação de estar a flutuar e que este mar imenso me pode engolir. Como se aquela superfície fosse uma fina folha de papel que se pudesse rasgar de um momento para o outro. Paro e tiro uma fotografia para ter a certeza que não estou a sonhar, que não é uma miragem à minha frente, à minha volta, a outra margem. Isto não é real, parece um lugar de sonho, aqui estar com os pés assentes na terra não quer dizer o mesmo. Eu pelo sim pelo não sigo as marcas no chão à minha frente até ao outro lado.
 M13, Ga’at Mezwar Do outro lado, olho para trás.
262 (125) N27º 09.3’ W10º 50.2’ End of fast section. You can now see the old Spanish tarmac ahead (as marked on normal maps). After the plateau, bear W. in Sahara Overland
 M13
277 (110) N27º 06.7’ W10º 57.9’ Military checkpoint. By-pass it on the right with a sign for Smara. Nearby is Hawza destroyed during the war. Bearing W. in Sahara Overland
 Smara
(...) Cansado, cansado não, mas estou com a perna num caco, nem me aguento… (…) Épá, foi um fixe, foi mesmo uma maravilha, 3 dias, mais de 600kms, só parei para água, pão e gasolina… (…) estou feliz, mesmo feliz, já andava com esta na cabeça há tanto tempo, que nem imaginas… e depois estar ali sozinho no meio de nada este tempo todo…não há palavras, é óptimo, é assim uma espécie de prova: és capaz ou não és capaz, és tu e a natureza mais nada… (…) não não tive medo nenhum, não há lá ninguém como é que se pode ter medo, só se fosse ter medo de mim mesmo. (…) o mais fod… é a areia, é uma merd. para mim, a areia, cada vez que vejo um bocado de areia fico logo a tremer, vou devagar, aquilo começa tudo a abanar de um lado para o outro e pronto, já está… foi assim que caí sempre, quase parado ou então nos regos, e o pior é que com as quedas tem-se mais medo e na próxima é pior porque já vais a medo. (…) por exemplo andei às voltas ali em Hawza, aquilo é um oued, só areia por todos os lados e eu a ir sempre pelo sítio com menos areia,e claro, era sempre o errado, lá tinha que voltar para trás, se não fossem uns soldados ainda lá andava à voltas, é a areia pá… é o pior, anda-se para ali com os pés no chão a patinhar, porque já vais a medo, pensas na perna pensas no que tens ainda de andar e pronto…ou então quando arriscas e aceleras e o coração parece que vai explodir tal é a adrenalina até chegares ao outro lado, não dá, é demais para mim… nem tirei fotos aquilo nem nada... tal era o estado... (…) é sempre ao pé das aldeias que um gajo se perde um bocado, vais por ali, depois não é, voltas para trás e depois andas para ali à voltas (...) o que eu faço é marcar o wp onde a pista começa, e o outro a seguir, para saber para onde vou, e depois vou controlando os outros com as coordenadas e com o Sol. Olho para o livro e sei qual a latitude e a longitude do próximo wp e no gps ponho aquilo a mostrar os graus no “heading” e e as coordenadas. E depois é fácil, os números vão aumentando à medida que vais para Norte e à medida que vais para Oeste. É preciso ter calma e perceber que 5km são 5km, não são 500 metros, por isso a coisa pode ir pra sul e dar a volta para nascente dois quilómetros depois, ou como diz o CS, “you have to look at the big picture”. Não podes é ir distraído, pista fora, tens que estar sempre a controlar. (…) A maior parte do tempo era só uma pista muito definida por ali fora, mas claro que me “perdi” duas ou três vezes e aí lá marquei os wp, aquele infinito todo assusta, estás sozinho, não é para brincadeiras, tens que ir muito concentrado o tempo todo... (…) Tinha 7 litros de água, e mais 5 de gasolina extra, deu e sobrou, mas a M13 tinha 387kms, e eu no gps fiz 410, e no conta-quilómetros da mota 425, e gastei 19L o que dá mais ou menos 21 / 22km por litro o que é uma média porreira, foi porque não havia muita areia. Foi assim: M12 212Km 7h30 no total (desligo quando páro ao fim do dia) 2h00 parado 40km/h moving average 29km/h total average
M13 410km 16h00 total 5h00 parado 38km/h moving 28km/h average (…) Ok, deixa-me ir ali, mas é, beber uma coca-cola, que estou cheio de sede… (…)
Extractos de uma conversa imaginária com a primeira pessoa que me apareceu à frente.
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Deus
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« Responder #29 em: Fevereiro 19, 2008, 17:50:05 » |
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