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« Responder #120 em: Outubro 30, 2008, 16:19:18 » |
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A ver se ganho balanço para continuar...
 Porto de Korioumé, no rio Niger
"Chegado o dito sal às margens das ditas águas, procedem deste modo: todos aqueles a quem pertence o sal, fazem com ele montes em fila, marcando cada qual com a sua marca para o conhecer. E depois, feitos os seus montes, todos os da caravana partem, e voltam atrás meia jornada. Depois vem uma outra geração de negros que não querem deixar-se ver nem falar; e vêm com alguns seus barcos grandes que parece que saem de umas suas ilhas. Vêm e desembarcam; e visto o sal, põem uma quantidade de ouro em frente de cada monte de sal, e depois voltam atrás, deixando o ouro e o sal. E assim que partem, vêm os outros negros do sal, e, se a quantidade do ouro agrada, tomam o ouro e deixam o sal; se não lhes agrada, deixam o dito ouro com o sal e tornam atrás. E depois vêm os outros negros do ouro, e os montes que encontram sem ouro, esses levantam-nos, e aos outros montes de sal tornam a pôr mais ouro, se lhes parece, ou, então, levantam o ouro e deixam o sal. E deste modo fazem o negócio sem que se vejam nem falem entre si, por um longo e antigo costume. E ainda que isto pareça difícil de acreditar-se, todavia certifico-vos ter alcançado esta informação de muitos mercadores tanto árabes como azenegues que vão com as suas caravanas a Tambuctu e a Meli, império dos negros acima referidos; e também [a] alcancei de mercadores de negros que praticam no dito lugar de Meli com pessoas a quem se pode dar crédito."
descrição de Luis Cadamosto, 1432 – 1488, navegador veneziano ao serviço de Portugal, em "Navigazioni”
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Deus
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« Responder #121 em: Outubro 30, 2008, 16:31:37 » |
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Paulo... em grande nível!! Já faziam falta estes pedaços! Toma lá um empurrãozinho para ajudar a ganhares balanço!! Ab
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Carlos Azevedo
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+ de 2000 msgs!!! Tu existes?
   
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« Responder #122 em: Outubro 30, 2008, 17:44:11 » |
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Guarda
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« Responder #123 em: Outubro 30, 2008, 22:50:12 » |
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Toma lá mais um empurrão Abraço
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Rui Guarda
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Luis Salta Silva
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« Responder #124 em: Outubro 30, 2008, 23:25:23 » |
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P. Explica só esta parte: "[...] onde troquei 50€ a 650cfa cada. Tranquilo. E comprei 3 garrafas de gasolina, pelo sim pelo não – cada litro despejado para o depósito custou 750 cfa’s. [...]
Não era mais 50 € por 6500 cfa 's ? Ou seja pagaste 5000 cfa's para entrar no país... pouco mais de 50 EUR ? Estarei errado ?
Já agora.. se quiseres de facto publicar o livro fala comigo. Estou pronto para ser teu editor e financiar o livro (edição e impressão) na minha empresa. Não só o assunto é viciante como penso que não sou o único a pensar assim... Para além de garantir distribuição.
Se for necessário convencer-te de que tens p+úbliuco .. fazemos ai uma amostragem...
Essencialmente .. escreve... escreve que a malta curte! :-] LS
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Alexandre Mineiro
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« Responder #125 em: Novembro 03, 2008, 21:26:07 » |
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Eu concordo com o Luis e acho que esse livro ia ter saida...  .... Mas para mim vou comprar a versão na lingua materna. Não pares de escrever... 
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Alexandre Mineiro Dominator 650 Nova AT já estava com saudades
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83-40-SU
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« Responder #126 em: Novembro 16, 2008, 13:24:06 » |
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P. Explica só esta parte: "[...] onde troquei 50€ a 650cfa cada. Tranquilo. E comprei 3 garrafas de gasolina, pelo sim pelo não – cada litro despejado para o depósito custou 750 cfa’s. [...]
Não era mais 50 € por 6500 cfa 's ? Ou seja pagaste 5000 cfa's para entrar no país... pouco mais de 50 EUR ?
1 € = 650cfa. Troquei 50€ o que deu 32500cfa. Paguei 5000cfa na Douane e o mesmo na Polícia, mais ou menos 7.5€ cada. E o litro de gasolina nas garrafas é 1€ e pouco, os tais 750cfa. Ab Paulo
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carlosevpinto
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« Responder #127 em: Novembro 16, 2008, 17:36:00 » |
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És uma verdadeira fonte de inspiração!!!!!!! Obrigado pela partilha 
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Abraço, Carlos Pinto
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Sérgio Castro
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« Responder #128 em: Novembro 17, 2008, 15:26:40 » |
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Só hoje me apercebi deste tópico.
Imagens fantásticas Paulo, realmente inspiradoras.
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83-40-SU
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« Responder #129 em: Novembro 17, 2008, 19:21:34 » |
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Estava sentado há mais de duas horas no cimento quente do Sol e sujo da terra que descia até à água do Níger. Estava sentado e olhava para o sal que parecia ter mil anos e para o rio que parecia ser igual desde que há mundo, e pensava na viagem que me tinha trazido até ali. Eu estava à espera de partir de Timbuktu pelo rio, como tinha planeado meses antes a olhar para uns mapas. O que não imaginara é que Timbuktu ia ser assim. Uma pessoa um dia sonha ir a um sítio. Depois chora e ri. Aprende e erra. Faz coisas por si e pelos outros e trabalha sem saber muito bem para quê. Muda de casa e de ares, transforma os dias em mais dias, num quotidiano que lhe diz pouco, mas continua. Olha olhos que partem, lê palavras que esquece e vive uma vida que às vezes não parece ser a sua. Molha-se numa chuva de dias cinzentos e depois molha-se numa água salgada com o Sol a queimar a pele. E o tempo passa sem se saber que o tempo passa. Mas um belo dia lembra-se que um dia disse “hei-de ir lá”. E depois as coisas mudam e é como se toda a vida tivesse sido vivida para um dia chegar aquele dia. O dia em que parte. Como se tudo o que tivesse vivido fosse para chegar ali, e estar ali a olhar o sal com mil anos. Mas ironicamente o que eu estava ali a fazer era mais uma vez partir. Não sei como explicar o sorriso que senti enquanto partia nas águas do rio que me levavam de Timbuktu, era como se estivesse a brincar com o destino. Como se estivesse a gozar comigo mesmo: “Andaste este tempo todo a pensar em Timbuktu?,então toma lá, o que levas de Timbuktu é isto!” Mas não me importei que tivesse sido assim: muitos meses a pensar numa viagem que me levaria lá, muitos anos com a palavra Timbuktu dentro do cérebro e afinal menos de 24 horas depois de lá chegar, estava a partir.
Rua em Timbuktu
Um japonês O japonês estava a jantar spaguetti à bolonhesa e a beber coca-cola, que coisa mais parva para se fazer em Timbuktu, pensei. Falava com um rapaz que lhe tinha trazido uma segunda coca-cola e que parecia estar a explicar-lhe como eram as maravilhas que o japonês tinha lido no lonely planet aberto sobre a mesa; o japonês falava quase tão mal inglês como o rapaz, mas lá se entendiam. A sala de tectos altos e com posters amarelecidos do tempo na parede - posters de paisagens desérticas a chamar o olhar dos turistas - estava vazia e mal iluminada por umas lampâdas neon. Depois de olhar para a lista de cuscuz, carnes na brasa e omoletes de toda a espécie, lá escolhi qualquer coisa que me pareceu mais adequado ao remoto lugar onde me encontrava. Encontrei o restaurante meio por acaso, meio seguindo o guia, perto do petit marché, onde já escuro, alguns vendedores iluminados por lanternas, me tentaram com punhais de nómadas e outro artefactos-para-turista-ver. De vez em quando a luz dos faróis dos carros que passavam deixavam ver algo mais que a poeira que se levantava atrás deles. Numa rua perto sentei-me no chão a beber um chá oferecido por um homem que vendia cigarros no chão, enquanto ele chamava as crianças ali ao lado e ia dizendo o nome delas, são todos meus filhos, sorria ele. Comprei-lhe os cigarros, mesmo com vários maços de reserva (ia dizer em casa…). Depois de esperar muito tempo, o rapaz do restaurante volta, a dizer que não havia o que eu tinha pedido. Então há o quê? Spaguetti à bolonhesa. Comi com coca-cola. Depois saí à pressa, enquanto entrava uma excursão de franceses barulhentos.
Timbuktu. Room with a view.
Camping Timbuktu
Um neozelandês O da kawasaki chama-se Campbell e é da Nova Zelândia; a kawasaki tinha vindo de barco de Barcelona para África, e ele trabalhava na Serra Leoa e estava a caminho da Guiné-Conakry. Um bocado confuso. No camping depois do jantar bebemos umas cervejas e falámos de viagens. A kawasaki já tinha atravessado a América, a do Norte e a do Sul, atravessado o Atlântico e não percebi se já vinha da Nova Zelândia ou não, mas era bem possível. Desta vez ele tinha vindo da Mauritânia onde tinha feito a pista do comboio (a que eu não tinha feito), mas por ter caído duas vezes mais ou menos assustadoramente optou por não fazer Atar > Tidjikja > Kiffa e foi até Kiffa por alcatrão. Daí optou por entrar no Mali por Kayes, uma pista que eu tinha previsto para a volta. O que ele disse é que demorou 4 dias para a fazer (eu tinha contado um dia para os menos de 300 quilómetros) e que andou por lá um bocado perdido, pois a pista embora marcada no Michelin 741, por vezes pura e simplesmente desaparecia. Andou de aldeia em aldeia perguntando o caminho sempre para Sul. Depois, tinha chegado a Timbuktu vindo de Mopti numa pista marcada a verde no mapa (“scenic route”). Para além de não haver propriamente uma pista, teve de meter a mota em pirogues seis vezes para conseguir atravessar o rio várias vezes até chegar. Estava exausto. O mais extraordinário da sua odisseia é que ele não tinha nem gps, nem mapas detalhados, nem nada. A única ajuda era o 741 (o mapa da Michelin que cobre toda a África do Norte e Oeste – 1:4 000 000) e uma bússola!!! Fiquei a olhar para o homem com um misto de admiração e inveja. Ao pé dele eu era um menino.
Camping Timbuktu
Porto de Kouriomé
Quando desci as escadas pensei assim: tenho de ir visitar Timbuktu, ver as mesquitas, percorrer as ruas, olhar para as pessoas, sentar-me a beber chá com calma; tenho de sair daqui antes que o Campbell acorde, senão já sei o que vai acontecer - não vou ver nada da cidade. E foi o que aconteceu. Subi as escadas depois de lavar a roupa e já estava ele acordado. Bebemos café e decidimos ir ao porto saber das viagens de barco para Mopti. Negociamos a viagem a 35000cfa (mais ou menos 50€) cada, com a carga e descarga da mota e comida incluído. Começamos em 100000, nada mau. O homem disse que este era a última viagem para Mopti nessa semana, só daí a 3 ou 4 dias haveria outra. Não sabiamos se estava a dizer a verdade ou se era só para vender a viagem; decidi ir. Não me estava a ver a ficar tanto tempo em Timbuktu mas nesse momento sabia que o que tinha visto de Timbuktu tinha sido o breve passeio ao lusco-fusco no dia anterior. Daí a 3 horas tinha de estar de volta ao porto para embarcar. No porto dou conta que tinha perdido a matrícula da mota. Andámos eu e o Campbell à procura dela na estrada (à ida uma cinta enrolou-se na roda da mota e acabou por partir – deve ter sido aí que a placa se partiu) mas não encontrámos nada. Voltámos. Vou ao banco junto ao Camping e tiro uma senha: 533. Há pessoas por todo o lado. Dentro e fora do banco. Vou a outro, mas dizem que não trocam moeda estrangeira. Volto. Andou dois números. Está no 535, eu sou o 587. Saio e fumo um cigarro cá fora. Por este andar perco o barco, pensei. Um homem sentado olha para mim como se estivesse a adivinhar o que penso e pergunta se quero trocar dinheiro. Digo que sim. Quanto? 640cfa. Eles trocam a 650. Mas tiram as comissões, é o mesmo. Ok. Toma lá 100€, dá cá 64000cfa. Um monte de notas. Risos e sorrisos da multidão à porta do banco quando as notas trocam da mãos. Atrás de mim um casal francês faz o mesmo que eu. O homem continua sentado à porta do banco. Volto ao camping, a roupa está seca, arrumo tudo. Afinal o Campbell não vem; está de diarreia, e prefere descançar mais um dia. Eu vou. Talvez nos vejamos em Motpi, ele vai por pista e a viagem pelo rio demora dois dias. São meio-dia e meia e o homem disse para lá estar à uma. Arrumo tudo e volto ao porto. Adeus Timbuktu.
Porto de Kouriomé “… só eu sei porque não fico em casa!!!!…”
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« Responder #130 em: Novembro 17, 2008, 19:58:34 » |
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:wings:  Aplaudimos o regresso em força!! Zé Paulo.
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Carlos Martins
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« Responder #131 em: Novembro 17, 2008, 23:59:10 » |
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O japonês estava a jantar spaguetti à bolonhesa e a beber coca-cola, que coisa mais parva para se fazer em Timbuktu, pensei. ... Depois de olhar para a lista de cuscuz, carnes na brasa e omoletes de toda a espécie, lá escolhi qualquer coisa que me pareceu mais adequado ao remoto lugar onde me encontrava. ..o rapaz do restaurante volta, a dizer que não havia o que eu tinha pedido. Então há o quê? Spaguetti à bolonhesa. Comi com coca-cola. :afro:
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Ricardo
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« Responder #132 em: Novembro 18, 2008, 11:05:13 » |
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Bom Dia,
Paulo. Grande relato. Parabéns!!!
Ricardo
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« Responder #133 em: Novembro 20, 2008, 17:33:31 » |
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 mesmo com ‘fotos cortadas’…
 Porto de Kouriomé Esta é a minha pinasse!
Era para ser mais ou menos a meio, mas foi exactamente a meio. A meio da viagem dois dias a navegar o rio com a mota encostada. Não sabia como ia ser mas esta fora uma das ideias que mais me fascinara quando planeara a viagem. Parar uns dias. Deixar de ser eu a conduzir, a escolher o caminho; e simplesmente ser levado. Deixar-me ir e ter tempo para olhar para os lados. Sem esforço, só ir. Respirar. Ir de Timbuktu, a ponta Sul do deserto, a Mopti, a cidade no centro do delta do Níger, um rio enorme que durante séculos não se soube se corria pra um lado ou para o outro. Tudo o que eu sabia era o que tinha lido no guia e chegado ao cais parecia que nada tinha lido. As pessoas, as embarcações, a actividade, a carga e descarga, o calor húmido, a sujidade, tudo era novo, tudo uma surpresa; o choque com o real é sempre esmagador, por muito que se leiam palavras no papel. Os cheiros e a luz e as cores e os corpos e a água batem dentro quando as sentimos. Eu tinha um pequeno papel manuscrito com as condições.
Paulo Belém 35000 avec moto charge decharge et nourriture tombouktu>mopti chef du syndicat Albert reservation 2500cfa
Um papel que dizia que eu podia ir na pinasse que fazia manobras à minha frente e que depois ficou ali parada. Os homens negros que a conduziram até ali despiram-se e lavaram-se na água às vezes verde outras vezes azul do rio. Mulheres vestidas às cores lavavam roupa e tachos de cozinha. Outros homens e mulheres chegavam descalços ao cais e esperavam. Outras pinasses e pirogues chegavam e de lá saíam mais homens e mulheres e sacos de todos os tamanhos e animais e mais sacos. Crianças vagueavam na terra vermelha ali perto. Carros velhos com pessoas e cargas chegavam e partiam. Outros homens sentados olhavam o rio. Paguei o dinheiro ao ‘capitão’ do barco e depois houve uma imensa discussão que não percebi mas calculei que fosse sobre a carga e a descarga da mota ou sobre o dinheiro que eu tinha acordado horas antes com o ‘chefe’ do cais. Vários homens discutiram entre eles e no fim foi cada um à sua vida e eu fiquei na mesma. Como é que eles iam pôr a mota ali em cima? Ainda perguntei a um que disse que não havia problema; eu que tirasse as malas e os sacos. Fiz isso e sentei-me. Fiquei a olhar para os homens que carregavam as placas de sal para dentro da pinasse. Eram empilhadas na vertical no fundo da estrutura crua de madeira do barco. Outros levavam os os seus haveres por uma prancha de madeira equilibrando-se como podiam, mas outros ainda escorregavam pelo oleado azul com uma agilidade malabarista, subindo e descendo entrando e saindo enquanto preparavam mais uma viagem – eram os tripulantes. Lenha era levada para bordo. Sacos, famílias iam entrando e acomodando-se em cima dos sacos e por baixo do comprido oleado. Tudo parecia como se sempre tivesse sido feito assim. Desde há séculos. Subitamente a viagem tinha outro ritmo. Não era eu que mandava no tempo. Ao fim daqueles dias todos a andar de mota, a marcar o caminho com as pausas que queria, era estranho estar ali a olhar para aquilo tudo, para aquela actividade que fazia parte dos dias daquelas pessoas sem ter que optar entre ficar e partir entre parar para fumar um cigarro ou fazer mais duzentos quilómetros nesse dia antes de montar a tenda. Tinha lido algures que uma viagem (especialmente a esta parte do mundo – se calhar pode-se dizer o mesmo de todos os sítios) tinha de ser feita com tempo; tempo para sentir e para ver, tempo para viver o que havia à volta. Tempo para compreender as diferenças tão profundas entres as diferentes regiões. Entre a aridez e o vazio do deserto e a vida de cores e cheiros que inundava a margem do Níger. De certa maneira era a primeira vez que isso estava a acontecer porque sabia que não estava nas minhas mãos o que fazer a seguir. A única coisa que podia fazer era esperar pelo momento de partida. Estava ali como qualquer outra pessoa à espera que fosse a hora de ir. Por isso deixei-me estar. Ainda não habituado à ausência daquela constante ânsia de partir outra vez, que tinha existido em mim, a cada momento, desde que saíra de Lisboa. Tudo tinha sido novo para mim desde o Sahara Ocidental. Cada cidade, cada quilómetro de estrada, cada pista, cada rosto. Estar só comigo tanto tempo, eu e o caminho à frente. As fronteiras e a desolação, o silêncio do nada e o caos das cidades, a imensidão solitária dos dias no deserto. A paisagem. A pobreza das pessoas. O céu e a terra. As estrelas. E agora uma vez mais, tudo era novo outra vez. Sentia que podia continuar esta viagem para sempre.
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« Responder #134 em: Novembro 25, 2008, 16:32:58 » |
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Timbuktu Só para me despedir da “misteriosa”, uma imagem que andou por aqui no desktop durante uns tempos antes do início da viagem.
E já que estamos no céu:
 Visible Earth, Niger river in Mali
“Just south of the Sahara Desert in Africa, the Niger River creates a lush area of wetlands and lakes in an otherwise arid environment. In this true-color MODIS image from October 18, 2001, the Niger enters at left as a thin strip of green and flows northwest through Mali. The river then turns south and heads into the country of Niger.” Credit Jacques Descloitres, MODIS Land Rapid Response Team, NASA/GSFC
Esta imagem descobri-a agora e não me canso de olhar para ela. Consigo imaginar Nema e o caminho que atravessou a fronteira até me levar a Timbuktu. É espantoso como o Níger divide a terra; o deserto a Norte cortado pelo rio. A linha verde de vida que tão depressa é fina e parece descobrir caminhos em falhas da terra seca, como forma uma mancha inesperada, uma surpreendente ilha de vida que se espalha. Mas o mais extraordinário é saber que uma linha verde e fina vista do céu é afinal um mar sem fim, azul e de todas as cores, quando flutuamos no rio; e a terra é uma magra linha escura que mal separa a água do céu.
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